sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O petróleo (ainda) é nosso?

A autossuficiência brasileira em petróleo, alardeada pelo governo em Lula em 2006, vem sendo perdida ano a ano. Em 2012, deverá ficar ainda mais distante, com a queda de produção da Petrobras e a falta de investimentos de outras empresas no país.
Até setembro, as contas entre produção e venda de derivados registravam deficit de 48 milhões de barris, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo).
O Brasil nunca foi autossuficiente em derivados, afirma a Petrobras, que admite ter perdido a autossuficiência em petróleo por conta do aumento do consumo interno entre 2007 e 2011.
Mas a empresa prevê que em 2014 o país deverá conquistar novamente volumes iguais de petróleo produzido e de derivados consumidos.
“O país sempre importou e continuará importando derivados, até que entrem em operação as novas refinarias previstas no Plano de Negócios e Gestão 2012-16″, informou a empresa em nota.
“Em 2020, planejamos ter 4,2 milhões de barris de petróleo por dia contra uma capacidade de refino de 3,6 milhões de barris por dia e um consumo de 3,4 milhões de barris por dia”, segue a nota.
Empresas privadas, que poderiam ajudar no crescimento de produção, estão sem áreas para se expandir. Uma das principais, Chevron, suspendeu suas atividades após o acidente há um ano na bacia de Campos.
Com deficit menores ou maiores, a autossuficiência tanto em petróleo como em derivados foi perdida a partir de 2008, segundo a ANP.
O aumento do consumo interno, que levou ao desequilíbrio, foi estimulado pelo governo, que, para combater a crise, baixou o preço dos carros e não permitiu que os combustíveis encarecessem.
DEFASAGEM E PERDA
Apesar de aumentos esporádicos, os preços da gasolina e do diesel estão defasados em cerca de 25% em relação ao mercado internacional, segundo analistas.
Para o ex-diretor-geral da ANP, David Zylbersztajn, a “sorte” do país é não estar crescendo muito ou o deficit da balança do petróleo seria bem maior. Ele considera que a falta de leilões deixou nas mãos da Petrobras a responsabilidade de atender sozinha um mercado grande demais até para a companhia.
“A Petrobras tem competência e gente para isso, tem história, mas é um desafio enorme em termos de capacidade de investimento. A Petrobras subsidia o dono do carro, então perde capacidade de investimento, e quem perde é o país.”
Ele lembrou que na 9ª rodada de licitações de áreas de petróleo pela ANP, em 2007, o governo retirou 41 áreas às vésperas do leilão, e que agora fazem falta. “Se tivessem sido licitadas, a quantidade de empregos, investimentos e produção que o Brasil teria hoje seria espetacular. Ali se perdeu um investimento monstruoso”, analisa.
O ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras Wagner Freire diz que a falta de leilões criou um ambiente desfavorável para atrair outras empresas a aumentar a produção no país.
“Exploração e produção são atividades muito especializadas e dependem de avaliação constante. Se você não tem mais investimentos para fazer aqui, você desmobiliza a equipe e manda para outro país”, afirma Freire.
Ele destaca que, apesar do esforço da presidente da Petrobras, Graça Foster, “de arrumar a casa depois de um viés partidário nacionalista muito grande na Petrobras nos últimos anos”, ainda vai demorar para a produção crescer, apesar do pré-sal.
“Houve muito exagero com o pré-sal. Apesar de esses campos terem sido descobertos em 2007/2008, só dois tiveram declaração de comercialidade até agora, o Lula e o Sapinhoá [ex-Guará]“, afirma o ex-diretor da empresa.

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